Estigma Escarlate

Apreciara mais o branco. Talvez por representar a pureza imaculada dos atos e dos sentimentos nobres. Talvez por simbolizar a tão procurada e ao mesmo tempo tão incompreendida Paz. Talvez por ser a conjunção de todas as cores, representando desta forma a unicidade. Ou, quem sabe, talvez por todos estes motivos conjugados.

Como segunda opção fora o azul celeste. Esta cor abstrata que desde a mocidade ele aprendera a apreciar, no prazer da observação do infinito, que, segundo os menos moços, seria a morada de Deus. Assim, para ele, esta cor significava a fonte das respostas para tantas perguntas ainda não respondidas. O elo entre a criação e o Criador.

Porquanto, todas as suas esperanças tinham a sua crença de concretização através destas duas cores. Elas tinham o poder de aproximá-lo da Essência Existencial.

Porém, um dia, o vermelho entrou em sua vida. De forma tão invasiva e passional, como somente a cor que representa a voracidade e a voluptuosidade das paixões poderia adentrar. O vermelho que, se por um lado lembra a morte através dos sangues jorrados dos corpos dilacerados por tantas guerras travadas entre os homens, por outro lado lembra a vida através desse mesmo sangue, só que, desta vez, contido em nosso corpo, a circular pelas nossas veias e artérias, nos permitindo o milagre do ser.

Assim, viu-se tomado de forma arrebatadora pelos anseios representados nos cinco vértices daquela estrela escarlate. Um novo mundo descortinava-se à sua frente. Um mundo onde haveria mais igualdade entre os homens. Um mundo mais próximo da Divindade. Então, como num passe de mágica, as cores branca e azul celeste conjugaram-se num bailado utópico e tingiram-se de vermelho, fundindo também os conceitos: pureza, paz, unicidade e Divindade.

Hoje, pouco mais de duas décadas decorridas, ele encontra-se desolado num vazio existencial. Tentando, em vão, catar no chão os cacos da estrela que de forma bastante arrebatadora se apossara de suas convicções morais. O símbolo que um dia ostentara de maneira tão orgulhosa no lado esquerdo do peito, parece ainda encontrar-se no mesmo lugar, porém, cravada com as suas cinco pontas, dilacerando a sua carne, como se fosse uma daquelas utilizadas como armas nos seriados da sua infância.

Onde um dia se avistara resplandecente o vermelho deste símbolo tão zelosamente trazido ao peito, hoje se avista o escarlate rubro do líquido a jorrar pela ferida aberta, como um estigma causado pela outrora tão gloriosa estrela.

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