Morreu? Enterra! Ou... quem sabe... talvez não!

Muitos, ou talvez alguns poucos, dependendo de quantos porventura lerem este texto, dirão que eu sou obcecado pela morte.

Será!?

Reconheço ter uma certa atração pelo mistério. E o que é mais misterioso do que a morte?

Sempre gostei de refletir sobre o desconhecido. Sempre tive uma imaginação bastante criativa, peço-lhes que me perdoem a imodéstia. E, desta forma, sempre tentei concretizar o abstrato; realizar o que de certa forma nos parece irreal; evidenciar o que em geral nós tentamos ocultar.

Mas este não é o caso da morte. Esta, eu vejo nos meus dias atuais, diferentemente de no passado, dentro das minhas convicções racionais, como um evento natural da vida.

Quando jovem eu a via como a maioria das pessoas talvez a veja: como um vulto sombrio com a sua longa foice sempre pronta a ceifar vidas. Totalmente tétrica! Literalmente lúgubre! E isto me amedrontava bastante!

Na medida em que eu fui amadurecendo, este vulto foi clareando e o tamanho da lâmina da sua foice foi encolhendo. De um vulto totalmente negro a uma misteriosa dama que às vezes me seduz e às vezes me amedronta. Mistérios que aos poucos eu vou desvendando ainda em vida.

Ah!, então você já se considera preparado para a morte? – alguém poderia me perguntar. Nem tanto – eu responderia com um leve sorriso na face. Não há como saber quando se está preparado para uma viagem da qual não se conhece exatamente o destino. Seria muita petulância da minha parte achar que estou preparado, uma vez que, segundo os relatos bíblicos, o próprio Jesus Cristo, que foi sem dúvida o espírito mais evoluído que já se materializou neste orbe, demonstrou insegurança em seus momentos finais.

Eu diria que plenamente preparado ninguém estará jamais. Até porque, diferentemente de todas as outras viagens, para esta não há um momento exato pré-definido para a partida, o que nos permitiria preparar antecipadamente as malas. O que podemos e devemos tentar é estarmos com a nossa bagagem de mão preparada, contendo estritamente o necessário.

Pensando assim, eu já orientei aos meus entes mais próximos. Ou não? Sei lá! Se não os orientei, provavelmente eles tomarão conhecimento disso ao lerem este texto. Mas será que eles o lerão? Caramba, se nem eles o lerem quem o fará!? Se assim for estou mal como escritor!

Mas, enfim, estou registrando neste texto a minha vontade: “Morri? Enterra! Ou... quem sabe... talvez não.” O que eu quero na realidade é que quando o fato for consumado seja aproveitado o que ainda servir deste amado fardo que me serviu de instrumento maior nesta missão e o que sobrar que seja cremado ao som da música ‘Caravansary’, de um dos magos dos sons que eu tive o prazer de ouvir nesta vida: Kitaro. E, por favor, ao invés de lágrimas desesperadas, suaves lágrimas de saudade; ao invés de gritos histéricos, ternas palavras em forma de oração; ao invés de comiseração pela minha passagem, a certeza de que eu estarei na continuidade do meu caminhar, com os meus erros e acertos, mas sempre tentando acertar.
                                                    (Edmaram – 25/08/2011)

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