Uma Bronca, Um Abraço

”Ela estava terminando de preparar o desjejum quando o seu filho adolescente, atrasado como sempre, sentou-se à mesa e rapidamente fez a sua refeição matinal. Ao levantar-se atabalhoadamente a sua mochila esbarrou na xícara de porcelana, herança da sua bisavó, levando-a ao chão em mil pedaços. Diante deste quadro, com uma fúria avassaladora, ela lhe passou uma descompostura como nunca havia feito. Ele, cabisbaixo, murmurou um ‘desculpa, mamãe’ e saiu entristecido por haver quebrado um objeto da sua mãe, que ele tanto amava, de inestimável valor.

Ainda por alguns minutos após a saída do filho, ela ficou remoendo a perda. ‘Puxa, a coleção agora ficará incompleta. Nunca mais será a mesma. Perdeu o seu valor!’ – disse ela para si mesma.

Decorridos mais alguns minutos, a adrenalina já estava baixando e, consequentemente, ela estava voltando ao seu estado natural quando o seu celular tocou. Ela atendeu e ao fazê-lo ouviu a voz da diretora do colégio do seu filho falar: não sei como lhe dizer, mas aconteceu algo terrível, houve um acidente aqui perto do colégio e o seu filho está morto.

O seu mundo desabou!

Ela instintivamente levou a mão livre a pia para se apoiar e neste momento tocou os cacos de porcelana que lá havia colocado. Ao senti-los, o seu mundo desabou duplamente, pois eles haviam sido o motivo de um derradeiro e cruel contato, tornando também cruel a despedida à pessoa que ela mais amava.”


Esta fábula retrata o que acontece todos os dias com milhares de pessoas. Quantas vezes, por algo tão fútil como uma xícara de porcelana, nós ferimos cruelmente pessoas que amamos. Geralmente as pessoas que mais amamos. São elas as que mais sofrem as conseqüências das nossas insatisfações, dos nossos estresses do dia a dia.

Quando há tempo para a reversão do quadro, tudo bem: basta um pedido de desculpas, um abraço carinhoso, uma declaração de amor e tudo estará resolvido. Ocorre que às vezes a vida é cruel e rouba-nos esta chance. Então o que nos fica é a amargura de levar pelo resto de nossas vidas esta experiência tão dolorosa de um último contato que em nada condiz com o profundo amor que nutrimos pela pessoa que partiu.

Que nós reflitamos sobre isto e estejamos preparados para quando a nossa xícara de porcelana for quebrada por alguma falha de um ente querido, nós possamos dizer calmamente: não tem importância, depois a gente compra outra.


*Não seria um diálogo sereno e amoroso, mas com a firmeza necessária, encerrado com um abraço carinhoso e uma declaração de amor, mais apropriado e eficaz do que uma bronca?
                                                    (Edmaram – 22/01/2012)

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