A Insegurança Que Nos Tolhe O Prazer

Os amigos sabem que, além da Literatura e da Música, eu tenho um apreço especial pela Fotografia. Muito me fascina o poder de perenizar uma fração do tempo. Registrar a essência de um gesto; o sentido de uma cena, principalmente as fortuitas; a majestade de uma paisagem: tanto as criadas pelo homem quanto, principalmente, as criadas pelo Poder Divino.

Portanto, sempre que a situação me permite eu pego a minha câmera e saio praticando esta agradável atividade. O produto desta prática eu gosto de compartilhar com os meus amigos. O tenho feito amiúde nos dois mundos contemporâneos: o real e o virtual.

Ocorre que um desses amigos certa vez me fez a seguinte pergunta: você tem uma porção de fotografias de várias cidades, do Brasil e do exterior, mas da nossa cidade, o Rio de Janeiro, que é belíssima, você tem pouquíssimas. Por quê?

É fato! Realmente, eu poderia e gostaria de fazer milhares de fotografias desta cidade que eu adotei e que amo. Ela é uma das mais belas deste planeta que, diga-se de passagem, tem cidades maravilhosas. Mas há um senão: a insegurança que nos ronda e nos amedronta, que nos tolhe a liberdade e o prazer de fazer certas coisas que gostamos! Qual o pai ou mãe que não fica preocupado(a) quando o seu filho ou a sua filha jovem sai para a balada noturna nesta cidade (me parece que balada já está implícita que é noturna, não sei, na minha época chamava-se ‘noitada’, se assim for me perdoem a redundância)?

Pois é, como eu posso sair todo fagueiro pelas ruas do Rio, com a minha câmera e o meu tripé, registrando milhares de momentos, de gestos, de cenas e de paisagens, mesmo sendo ele riquíssimo nisso tudo? Não dá para fazê-lo na rua, muito menos no morro! Que pena! Imaginem quantas belas panorâmicas eu conseguiria a 100, 200, 300 metros do nível do mar. Não dá para fazer de dia e, de noite (risos), nem pensar!

Então, só me resta o consolo de fazer nas cidades que me deem condições para tal.

Em Brugges, uma belíssima cidadezinha da Bélgica, que, com seus canais e a arquitetura, é conhecida coma a Veneza belga, eu fiz fotografias noturnas lindíssimas (palavras de vários amigos), rondando a cidade com o meu equipamento até quase 1 hora da manhã. Em nenhum momento eu me senti ameaçado. E olha que estes canais e a arquitetura que lhe dão tal beleza também lhe dão certa lugubridade.

Assim como Brugges, várias outras cidades europeias me permitiram sentir-me seguro e, desta forma, poder registrar pela Fotografia as suas belezas.

Alguns de vocês poderão dizer: mas estamos melhorando; estão aí as UPP’s; virão a Copa e a Olimpíada e certamente a nossa cidade melhorará ainda mais no quesito segurança.

Eu responderia da seguinte forma:

Eu não sou pessimista. Classifico-me como realista com viés de otimismo, embora a minha mulher já tenha me acusado de ser um otimista em excesso, no que eu discordo dela. Mas não acredito mais que vai melhorar tanto assim. No início eu acreditei, mas os sinais que eu tenho percebido nestes últimos anos não me permitem continuar acreditando. Enquanto os valores morais dos nossos homens públicos não mudarem a cidade não mudará. Espero, sinceramente, estar equivocado nesta questão, não somente pela cidade e sua população, mas também para que o valor do meu apartamento continue sendo três vezes mais do que o valor que eu paguei há quatro anos. Como eu não pretendo vende-lo antes de 2016, claro que eu vou torcer para que esta bolha não estoure!

Mas voltando ao mundo da Fotografia, enquanto nós não tivermos a tão sonhada segurança em nossa cidade eu, infelizmente, continuarei esperando o momento cantado e decantado pelo Martinho da Vila no samba de sua autoria “Quando Esta Onda Passar”:

♫♫Quando esta onda passar,♫♫
♫♫Vou te levar nas favelas.♫♫
♫♫Para que vejas do alto♫♫
♫♫Como esta cidade é bela♫♫...

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