A Separação

Para se manter à tona, embora o corpo já reclamasse e os pulmões não obedecessem mais ao comando do cérebro, Eleonora, num último esforço tenta resistir ao cansaço. Na ânsia de alcançar a faixa de areia que se apresentava tão próxima mas ao mesmo tempo tão distante, ela reúne o resquício das suas forças e consegue dar mais algumas braçadas, porém, seus braços já não a atendem de prontidão. Ela já perdia as esperanças quando sente um braço vigoroso enlaçar o seu corpo por sob as axilas e lenta e paulatinamente levá-la em direção à praia.
Abre os olhos ao sentir uma boca, emoldurada pela face de um anjo, colada à sua boca. Só então que ela percebeu que havia desmaiado. Ou será que não? Será que ela havia morrido e encontrava-se no paraíso, com um anjo a beijá-la. Entretanto, logo percebe a realidade e envergonha-se pelo ocorrido. Porque não ouvira os apelos da irmã a lhe pedir que não se afastasse muito da areia.
Anselmo - este era o nome do seu anjo salvador - estava caminhando na areia quando percebera o seu afogamento. No intuito de se certificar de que ela realmente já se encontrava fora de perigo ele iniciara um diálogo. Enquanto conversavam uma estranha e sutil magia os circundou.

Pouco mais de dois anos se passaram e eles estavam casados. Ela com 19 anos de idade e ele com 23. Passaram a lua-de-mel nas Serras Gaúchas, onde, brincaram na neve como duas crianças, felizes e sem maiores preocupações. O futuro lhes sorria brilhante e esplendoroso. Foram os dias mais felizes da sua vida, pois estava ao lado do homem que escolhera para seu companheiro.
Nos primeiros meses de vida em comum sentia-se como num conto de fadas. Era a verdadeira Cinderela, vivendo um sonho de amor com o seu príncipe encantado. Sempre que ele retornava de mais um dia de trabalho, ela preparava-lhe uma surpresa diferente. Um jantar mais elaborado; um perfume novo; uma ‘lingerie’ mais ousada; uma nova arrumação na casa. Porém, a maior surpresa que ela lhe preparou foi no dia em que pôs ao lado da vitrola – pois, sempre que ele chegava em casa, colocava para tocar o seu cantor predileto – um misterioso envelope tendo em sua face a seguinte mensagem 'Favor verificar o conteúdo deste envelope'. 'Parabéns, querido Papai!!!' Esta foi mensagem encontrada. Não contendo a emoção, ele a enlaçou fortemente em seus braços. Suas lágrimas se misturaram num beijo ardente e aquela noite se tornou uma das mais memoráveis em suas vidas.

No período da gravidez, Anselmo tornou-se ainda mais atencioso e carinhoso, satisfazendo todos os seus desejos e tinha como passatempo predileto acariciar a sua barriga. Quando o bebê se mexia ao toque da sua mão ele ria como uma criança.
No dia do nascimento, houve algumas complicações: ela já estava na sala de parto há duas horas e ele andava sem parar pelo corredor tal a sua ansiedade. Parentes e amigos tentavam acalmá-lo, em vão. Pois afinal era a sua Eleonora que estava lá, dentro daquela sala, precisando da sua força, do seu apoio. E ele ali, impotente, sem poder fazer nada.

Tal foi o seu alívio, quando finalmente a porta se abriu e ouviu-se 'Meus parabéns, papai! É uma linda menina. E você já pode entrar para vê-la, e à mãe, pois as duas estão a lhe esperar'. Era o médico anunciando a boa notícia. Anselmo disparou porta adentro numa explosão de alegria e ao avistar a esposa com o fruto do seu amor nos braços, as lágrimas rolaram em profusão. Mais dois filhos vieram posteriormente: um menino e outra menina, respectivamente 2 e 3 anos após o nascimento da mais velha. E a felicidade do casal se tornou completa.

De vez em quando Eleonora recebia a visita da sua irmã. A mesma que estava com ela na praia no dia em que conhecera Anselmo. Divertiam-se a valer ao lembrarem do episódio naquele quase fatídico, porém feliz, dia.
A irmã era a sua melhor amiga e confidente, mais velha do que ela três anos, foi ela quem a supriu com o amor materno que lhe faltara quando tinha apenas 13 anos de idade. Do pai, militar de carreira, que após o falecimento da esposa teve o coração mais endurecido ainda, só podia contar com o apoio financeiro e moral. Portanto, até conhecer Anselmo, a irmã fora a sua única fonte de carinho e amor após o falecimento da mãe. Porém, o destino a compensara, pois ele era um homem extremamente romântico e dedicado à família, possuidor de uma sensibilidade bastante incomum. Eleonora receava de que tudo não passasse de um sonho e que a qualquer momento ela poderia acordar.

Os filhos se formaram, cada qual na profissão escolhida, quando ela percebeu que vinte e cinco anos já haviam se passados desde quando unira a sua vida à de Anselmo. Por insistência dos filhos, dos amigos e parentes, eles decidiram comemorar as suas Bodas de Prata. Reuniram todos para festejar em nome do amor, do respeito e da compreensão, para eles os três esteios de uma relação duradoura.

O tempo seguia em frente e 'o sonho' de Eleonora continuava resistindo. Os filhos já casados tinham lhes dado cinco lindos netos. Anselmo, tal como se demonstrara como pai e marido, também se revelou um perfeito avô. Era motivo de alegria para ele quando a casa ficava recheada com as presenças vivazes dos seus netos. As crianças, por sua vez, adoravam ir para lá, pois a casa situava-se em amplo terreno de área verde, com um pequeno pomar além de alguns animais domésticos.
E nesta harmonia o tempo, inexorável, continuou a sua marcha. Vieram as Bodas de Ouro: 50 anos de matrimônio com Anselmo; 50 anos ao lado do homem que tornara-se para ela mais importante do que, talvez, a própria vida; 50 anos de amor, que apesar das intempéries do tempo, e talvez em função delas, se sedimentara cada vez mais; 50 anos vivendo o seu 'sonho'!

A festa das bodas foi maravilhosa. Anselmo estava lindo e radiante. Dançaram a noite toda. Ela se sentia como uma rainha, ao lado do seu rei, com os súditos a lhe renderem as devidas homenagens.

...?!?!

Eleonora, como a despertar de um longo e profundo sono, sente suavemente uma mão pousar em seu ombro e, ao longe, a voz de sua irmã: 'Eleonora, temos que cerrar a urna. Está na hora de levarmos Anselmo até a sua última morada!'

Foi então que Eleonora percebeu que o seu sonho havia terminado. 
                                                                                    (Edmaram)

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