As Travessuras do Amor

Ramon e Isabela, com vinte e quatro e vinte e três anos de idade respectivamente, sendo três de vida em comum. Ela, romântica inveterada, encontrou nele o homem da sua vida, por quem se apaixonara perdidamente. Ele, atraído pela sua pele alva, seus graúdos olhos verdes, seus longos cabelos cacheados e sensuais lábios carnudos, não resistiu aos encantos de fêmea quase perfeita.

Tudo foi maravilhoso nos dois primeiros anos. Porém ele, um sujeito inquieto quando o assunto é mulher, começou a dar as suas escapadas. Inicialmente, ele conseguiu conciliar os dois papéis: o de marido ardoroso e terno e o de 'pipa-voada'. Só que sexo, quando não é bem administrado torna-se um vício como qualquer outro, quanto mais se tem, mais se quer. Assim, o casamento foi se deteriorando. Apesar de continuar amando Isabela, como ele acreditava que amava, não percebia o quanto a estava fazendo infeliz.

Nos happy hours com os amigos exaltava a beleza da vida, autoproclamando-se o mais feliz dos homens, por ter uma mulher maravilhosa como esposa, sem privar-se no entanto das conquistas de outras tantas belas mulheres. Tendo ele sido favorecido pela beleza física e possuidor de uma excelente situação financeira, conquistar belas mulheres não lhe era uma tarefa muito difícil. Dizia-se um garanhão inveterado.

Isabela ressentia-se de suas desatenções como marido. Não percebia nele o mesmo carinho e a mesma ternura dos tempos iniciais. No sexo, quando ele a procurava, ela sentia que tal ato não era mais um compartilhamento total entre os dois. Percebia que ele não se esforçava mais para fazê-la feliz.

Como ela era de poucas amizades, talvez pelo fato de ser bastante seletiva neste item, Isabela permitiu maior aproximação de uma colega de trabalho, admitida há não muito tempo na empresa. Vanessa também era uma linda mulher. Morena cor de canela, olhos verdes-esmeralda e cabelos negros lisos na altura dos ombros. Aos poucos, Vanessa conquistou a sua confiança e amizade, tornando-se assim sua confidente, além de assídua freqüentadora da sua casa.

Ramon, quando viu Vanessa pela primeira vez, ficou bastante extasiado com a sua beleza. Imediatamente imaginou-a sendo mais uma de suas conquistas. Percebia nela um charme todo especial quando estavam juntos, os três. Essa será fácil – pensava ele. Quando nas rodas de bate-papo com os amigos, ele vangloriava-se da mais nova conquista que estaria por fazer. Porém, bem sabia que todo cuidado seria pouco, para que Isabela não desconfiasse de nada.

Na semana seguinte Ramon, que era um profissional na Área de Propaganda e Marketing, viajaria para Paris, onde faria um curso, devendo permanecer lá por três semanas. Prometeu então, a si mesmo e aos amigos, que regressaria de Paris com um plano perfeito para a investida final em Vanessa. Assim ele viajou, antegozando os momentos sublimes que passaria ao lado daquela bela morena de corpo escultural quando retornasse.

Isabela, tentando fugir da melancolia, convidou Vanessa para ficar em sua casa durante estes dias. Sendo o convite prontamente aceito. Sempre ao lado da amiga, Vanessa mostrava-se cada vez mais meiga e carinhosa, confortando-a em sua tristeza e solidão.

Numa determinada noite, estavam as duas conversando após o jantar, quando Vanessa subitamente aproximou os seus lábios, leve e suavemente, dos lábios de Isabela. Esta por sua vez, embora assustada com tão inusitada situação, deixou-se beijar, sentindo lacerar em seu peito uma profusão de sentimentos contraditórios. Aceitou as carícias cada vez mais audaciosos da amiga, permitindo-se viver uma noite de amor como jamais havia imaginado viver.

As três semanas previstas para o curso haviam se passado e Ramon retornou de Paris trazendo na bagagem, além de presentes para Isabela, um mimo para Vanessa e o plano perfeito para conquistá-la.

Ao adentrar em sua casa sentiu na atmosfera uma sensação de angustioso vazio. Era como se algo estivesse para desabar sobre a sua cabeça. Procurou por Isabela e não a encontrou. Seus pertences também não mais se encontravam lá. Percebeu que sobre a mesinha do telefone havia um bilhete. Reconheceu na palidez do papel a escrita fina e delicada da amada que ele não soubera fazer feliz. E, na conjunção das letras, das quais algumas se encontravam levemente borradas, o que denotava claramente as lágrimas que ela havia vertido enquanto escrevia, traduzia-se a seguinte mensagem: "Ramon, muito refleti no decorrer destes dias em que você esteve fora e cheguei à conclusão que a nossa relação não faz mais sentido. Encontrei em outra pessoa o que há muito tempo não tenho recebido de você: carinho, respeito, amor e amizade sincera. Por isso, resolvi sair de casa, levando comigo o estritamente necessário. Pode ficar com todo o resto. Nada mais quero de você. Portanto, não haverá discussões sobre partilha. Você será procurado pelo meu advogado nos próximos dias para providenciarmos o divórcio. Adeus." 
                                                                                                                                                                        (Edmaram)

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