Ave de Rapina

Do seu ponto de observação, a uma distância segura o suficiente para lhe garantir que não a espantará, a águia fixa o seu olhar sagaz na presa que caminha despreocupadamente por entre a relva ainda úmida pelo orvalho noturno, esperando o momento oportuno para o vôo decisivo: para a sua alimentação e para a vida da presa. Chegando o momento preciso alça o seu vôo magistralmente aos céus, com sua envergadura portentosa e com extraordinária precisão segue até o ponto exato que lhe permita um ataque certeiro, sem chances de escapatória para a sua presa. Então, num mergulho vertiginoso e veloz, consagra o destino do pobre coelho. Após a lauta refeição ergue-se novamente aos céus rumo ao aconchego do seu ninho para o merecido repouso.

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Darci desperta e ao abrir os olhos percebe, pelo espelhado do teto, um corpo inerte ao seu lado. Vira-se para examiná-lo melhor e observa tratar-se de um belo corpo. Sem nada entender num primeiro momento pela sonolência que ainda persiste, vai aos poucos relembrando do ocorrido das últimas horas: os drinques, as canções, os olhares iniciais e as palavras trocadas; daí para as carícias preliminares foi um passo, e, quando percebeu, já estavam nos braços um do outro por entre os lençóis daquela cama ampla e macia, berço de tantos amores e pecados, desfrutando os prazeres carnais. E como havia lhe proporcionado prazer aquele corpo!!!

Mais uma noite de paixão avassaladora para a sua já tão badalada história. Novas emoções. Novos momentos. Novas lembranças. Novas marcas na alma e no corpo. Novas histórias e novas estórias. Novos mistérios foram desvendados e um novo corpo foi deleitado!

Levanta e se encaminha ao banheiro para a higiene matinal e só então é que percebe, pelos espelhos ao redor, exatamente o lugar onde se encontra. Ao regressar do banho observa que o corpo estirado na cama já não está mais inerte. Recebe um sorriso como cumprimento e, maquinalmente, diz “bom dia”. A conta paga sugere que é hora de ir embora.

Dentro do carro não se ouve uma palavra, era como se um elo houvesse partido nessa tão efêmera relação, como se os últimos acontecimentos os envergonhassem. Chegando ao seu destino, ao sair do carro, ouve alguma coisa que não sabe precisar e responde secamente com um “É, a gente se vê por aí”.

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Com aproximadamente 40 anos a águia retira-se para o topo da mais alta montanha da sua região e lá ela constrói um novo ninho onde, num penoso processo de renovação, ela arrancará o seu bico, as suas garras e as suas penas, para que nasçam novas penas, novas garras e novo bico. Findado este processo ela voltará a bailar novamente nos céus, com toda a sua majestade, em busca de novas presas.


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Darci, agora aos 70 anos de idade, encontra-se na varanda do minúsculo apartamento onde reside. Observa a agitação noturna da grande cidade onde vive. A cadência acelerada do pulsar desta cidade - pulsar que por décadas ditou o ritmo da sua vida - traz à sua mente melancólica os fatos que marcaram a sua existência. Num processo de auto-análise começa a reavaliar os valores que nortearam a sua vida.

Noites e mais noites na boemia. Porres e mais porres homéricos, das mais variadas bebidas. Farras. Orgias. Dezenas, talvez centenas, de relações sexuais completamente desprovidas de qualquer comprometimento moral.

Nada construiu! Nada criou! A ninguém amou!

Sem companheirismo! Sem filhos! Sem amor!

Tal qual uma árvore sem frutos e desoladamente só, Darci percebe tristemente que para si não há qualquer processo de renovação.

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