Miúdo

Idos da década de oitenta do século passado, mais precisamente no verão de mil novecentos e oitenta e quatro, certo dia, estava eu em minha mesa de trabalho como fazia todos os dias há três verões nesta mesma empresa, quando então em minha frente surgiu um rapazola meio tímido com seus vinte e dois anos de idade, faltando poucos dias para completar os vinte e três, uma estatura de quase dois metros de altura e uma magreza imberbe. Foi-me apresentado como o mais novo colega de trabalho. Trocamos as apresentações formais e lá se foi ele sendo apresentado aos demais colegas do setor. Naquele instante eu lembrei-me quando, sete anos antes, recém-chegado do interior, ingressara no meu primeiro emprego na cidade grande e, imediatamente, percebi que haveria de ter alguma afinidade com este jovem cerca de quatro anos mais novo que eu.

Desde o início ele demonstrou ser um rapaz inteligente e trabalhador e pouco a pouco foi cativando a todos pela sua simplicidade e força de vontade. Para ele não havia tempo ruim, era ‘pau pra qualquer obra’ como se dizia naquela época. Bastante solícito e de uma presteza incomum, nunca se incomodava em ajudar os colegas de trabalho em suas atividades laborais. Foi então que eu comecei a admirá-lo. E, talvez em referência a sua singeleza e humildade, além de uma referência inversa a sua estatura, comecei a chamá-lo carinhosamente de Miúdo.

Devido ao seu jeito brincalhão e comunicabilidade, rapidamente foi aceito pela turma, passando inclusive a nos acompanhar, esporadicamente, é bem verdade, nos ‘happy hours’. Porém, curiosamente, só bebia refrigerante, nem uma gota de álcool. Entretanto, sabe como são os grupos de amigos em uma mesa de bar: em um desses ‘happy hours’ em que ele nos acompanhou a turma insistiu tanto que ele acabou cedendo e despejou um pouco de cerveja em seu copo. Para nosso espanto, após uns três ou quatro goles, já demonstrava sinais de embriaguez. Percebendo o erro que havíamos cometido nós nunca mais o induzimos a tal ato novamente e passamos a respeitá-lo ainda mais. E eu continuei a chamá-lo carinhosamente de Miúdo.

Lembro-me, especialmente, de um dia em que por motivos que a passagem do tempo não me permite rememorar, eu o levara para sua casa de carona em minha motocicleta. Eu, já nesta época, muito provavelmente em função das comilanças e cervejas, era o que podemos chamar de ‘levemente obeso’. E ele que, não pela cerveja é claro, pois como eu já disse não era a sua praia, mas pelos refrigerantes que não dispensava e também pela comilança - sendo tão bom de garfo quanto eu - estava seguindo pelo mesmo caminho. Por conseguinte, foi cômico o cenário, nós dois atravessando a Ponte Rio - Niterói sobre uma motocicleta que se não era pequena também não era grande o suficiente para transportar dois homens daquela estatura. Entretanto, nós conseguimos chegar ao destino, sãos e salvos. Mas, naquele dia eu percebi que não havia muito sentido eu chamá-lo de Miúdo.

Sagaz e estudioso, com uma disposição pouco comum para a autodidática, além de um apurado dom para a tecnologia computacional, sem, contudo, seguir a sua tendência optando por este mercado, ao contrário deste que vos escreve. Assim, ele deu continuidade à sua história laboral na mesma área funcional onde iniciou naquela longínqua manhã de verão. Foi então que nossos caminhos, de certa forma, se distanciaram um do outro. Mas, nem por isso eu deixei de chamá-lo carinhosamente de Miúdo.

A partir daí eu só via-o, esporadicamente, pelos corredores da empresa ou, muito pouco, por força das nossas funções. Mas, mesmo assim continuei acompanhando a história da sua evolução profissional. Sendo ele um trabalhador incansável e com um fino faro para as soluções dos problemas que se apresentavam, foi aos poucos, digna e honestamente, cavando o seu espaço, até culminar com a indicação para o cargo de chefia da sua área. Tal fato, entretanto, jamais alterou a sua forma de ser, ao contrário da maioria dos colegas que chegaram a este patamar, e ele continuou demonstrando a mesma simplicidade e a mesma forma terna e brincalhona de tratar os colegas. E eu continuei a admirá-lo e a chamá-lo, cada vez mais carinhosamente de Miúdo.

Porém, o destino lhe reservava algumas surpresas, e a primeira delas foi quando certa incompatibilidade com o seu gerente imediato acabou levando-o à perda do cargo de chefia. Mas ele não esmoreceu e com o seu jeito simples e eficaz, começou mais uma vez, com a dignidade que só os de espírito elevado sabem ter, a cavar o seu espaço dentro da empresa. E eu continuei a chamá-lo carinhosamente de Miúdo.

Entretanto, cruel - como só o destino às vezes sabe ser – lhe reservou uma surpresa maior e muito pior. Lenta e assustadoramente ele começou a perceber que algo de errado estava ocorrendo com o seu corpo: os músculos já não lhe obedeciam prontamente como outrora. Procurou ajuda médica e após alguns exames o diagnóstico como notícia fatal: Esclerose Lateral Amiotrófica, uma rara doença neuromuscular progressiva que na grande maioria das ocorrências é fatal. Ela ataca os neurônios motores na medula espinhal e o tronco cerebral que enviam sinais do cérebro para os músculos voluntários em todo o corpo. Quando os neurônios motores morrem em conseqüência da ELA – esta é a sigla desta fatídica doença – a pessoa perde a capacidade de controlar os movimentos musculares. Quando os músculos não recebem as mensagens, eles enfraquecem e se atrofiam. Estava iniciada a maior batalha da sua vida, a luta contra os desconfortos que esta doença causa e a busca de uma sobrevida que o permitisse ter a esperança de que, de alguma forma, fosse descoberta a cura. Pesquisador incansável passou a estudar, enquanto lhe foi permitido, tudo sobre a doença que havia cruzado o seu caminho, adquirindo, por conseqüência, o seu conhecimento com riqueza de detalhes.

Por algum tempo ele ainda teve condições de conviver conosco dentro da empresa, com alguns intervalos de ausência devidos às internações hospitalares. Nós, seus amigos da empresa, nos tornamos testemunhas do lento processo de degeneração que o seu corpo, outrora tão robusto, estava sofrendo; da doença inexorável minando as suas energias; e dele, mesmo diante desta adversidade, mantendo o seu jeito amigo e brincalhão. E eu continuei a chamá-lo, mais do que sempre carinhosamente, de Miúdo.

Porém, chegou um momento em que não foi mais possível o seu deslocamento até a empresa e ele desde então viveu entre as UTI´s dos hospitais e a ‘home care’ do seu lar, sempre sob a tutela amorosa da sua esposa. Sobrevivendo através de aparelhos e tubos, necessitando de cuidados especiais vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, mantendo a lucidez avivada apesar do corpo depauperado. Talvez sem entender muito bem o que estava se passando consigo ou talvez entendendo melhor do que nós, seus amigos e parentes.

E eu, bem, eu continuei acompanhando a saga deste amigo. Acompanhando à distância, com raras visitas. A avalanche das atividades diárias geralmente nos torna cruéis com quem amamos e também conosco mesmos, nos induzindo a dar valor ao que nem sempre valor tem e a esquecer daquilo que valioso é por demais, quando então só descobrimos ao perdê-lo.

Mas, de certa forma, continuei sendo testemunha desta batalha. Uma batalha desigual, perante a qual nos sentimos tão pequeninos e impotentes. Uma batalha que somente a fé no Criador pode amenizar os seus efeitos e nos proporcionar uma pequenina, quase ínfima, compreensão do fato e conseqüente resignação. E assim, eu, mesmo que seja carinhosamente, não tenho mais como chamá-lo de Miúdo, portanto, diante desta dura realidade, só me restou chamá-lo carinhosamente de Gigante.
                                                                                                                                                                                                                                                            (Edmaram)

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