Natal Na Rocinha – Um Conto de Natal


Ante os olhos marejados de lágrimas estampa-se lá embaixo a imagem panorâmica da cidade iluminada pelas luzes natalinas.

Como ela é bela! – ele exclama para si mesmo.

Sempre que se sente triste e amargurado ele refugia-se neste seu ponto predileto do morro para poder apreciar a beleza desta imagem em todo o seu esplendor. E para isto não há hora certa, tanto faz se é dia ou noite.

E lá está ele nesta Noite de Natal!

Após a singela ceia que fizera com a sua mãe, que logo depois foi dormir tal o cansaço da rotina das últimas semanas de trabalho intenso como diarista, ele para ali se dirigira para conversar com Deus, como gosta de afirmar.

Observa, uma a uma, os milhares, talvez milhões, de luzes a iluminar esta noite especial. E em cada pequena luz observada ele sente reacender-se a esperança num futuro risonho, numa vida mais digna. Sonha com o dia em que a sua mãezinha não precisará mais executar o trabalho pesado da faxina para poder ajudá-lo na preparação para este futuro. – Estudo é sagrado, meu filho. – ela costuma dizer – Aqui em casa pode faltar tudo menos as condições para o seu estudo.

Quantas vezes ele percebera que, não havendo comida suficiente para eles dois, ela discretamente fingia não estar com fome para que ele pudesse se alimentar. Quantas vezes ela tivera que empenhar os poucos pertences para poder colocar comida à mesa. Ao lembrar-se dessas coisas um imenso nó sufoca-lhe a garganta e as lágrimas se tornam mais presentes em seus olhos.

Tenta, por um momento, afastar tais pensamentos e foca a sua atenção mais uma vez na beleza estampada à sua frente.

Como deve ser bom viver lá! – ele imagina. Observa aqueles edifícios imensos e lembra-se das coisas que a sua mãe costuma lhe dizer sobre as residências chiques nas quais ela trabalha.

Ah, a sua mãezinha! Como a admira! Pela sua garra, pela sua força de vontade, pela seriedade com que ela trata o seu futuro. Ela mal sabe ler e escrever, mas a tenacidade moral com que ela cuida da sua educação suplanta qualquer deficiência que ela possa ter.

Do pai, não há notícias. Quando ele era menorzinho, ela lhe dizia que o pai havia morrido. Já maiorzinho, ela contou-lhe a verdade, dizendo que ele já tinha idade suficiente para entender as coisas da vida: jovem e perdidamente apaixonada encantara-se com aquele que dizia amá-la, porém quando ele recebeu a notícia da gravidez, desapareceu no mundo e nunca mais deu as caras no morro. Só isso, nada mais ela lhe falou sobre o assunto. Mas, por intermédio das “tias” ele ficou sabendo de todas as dificuldades que ela enfrentou desde então.

Mais uma onda de emoções sufoca-lhe a garganta. Olha para o céu na vã tentativa de encontrar Deus. Aquele Deus que ainda pequenino ele intuitivamente já pressentia a existência. Aquele Deus que, ao lado da sua mãe, fora a principal razão para ele vencer todos os obstáculos até este momento; para ele resistir às tantas tentações da vida fácil do tráfico, no qual sucumbiram vários amigos de infância, alguns verdadeiros irmãos.

É a fé neste Deus que o faz ter a certeza de que, aconteça o que acontecer, ele seguirá determinado no caminho inicialmente traçado pela sua mãezinha e que através do seu estudo e do seu trabalho ele finalmente poderá junto com ela fazer parte deste mundo luminoso.

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