O Banho da Vizinha

Encontrava-se absorto em pensamentos ocasionais, sentado sobre o que, ironicamente, costumava denominar de trono, em um daqueles momentos em que todo ser humano se iguala, independente da classe social – o outro é o momento da morte. De repente um som proveniente do banheiro da vizinha o desperta desta letargia: o som característico de água caindo sobre o piso indicava que o chuveiro fora aberto, portanto, a vizinha havia iniciado o seu banho. Imediatamente algo se transforma em seu corpo e o compasso rítmico das suas batidas cardíacas se acelera assustadoramente como num passe de mágica.

Ah! A vizinha! Não propriamente bela, desta beleza brasileira convencional. Não tinha um corpo escultural: com poucas curvas, longo e esguio. Porém, havia algo nela, ele não sabia precisamente o quê, talvez aquele charme abstrato encontrado em algumas pessoas especiais, que o atraia deveras. Raríssimas vezes - é bem verdade - ele havia tido a oportunidade de vê-la. E, nestas poucas vezes, foi sempre de forma muito ligeira no corredor do seu andar ou na garagem do prédio. Uma única vez tivera o privilégio de sentir por alguns minutos a sua proximidade, quando então pôde apreciar melhor, furtivamente, o seu corpo, a sua presença. Estavam eles dentro do elevador, a sós, quando ele sentiu-se de tal forma inebriado com o suave perfume que dela emanava. Tão devastador fora o efeito que ela lhe causara que ele, em êxtase, mal conseguira balbuciar um ‘Boa noite!’. O sorriso contagiante que ela lhe devolvera como cumprimento o envolveu completamente.

Ao lembrar-se do seu belo sorriso começa imediatamente, no seu imaginário, a visualizá-la sob o chuveiro: a ducha caindo por sobre os seus longos cabelos negros e deslizando pelo seu corpo num bailado sensual, para finalmente escoar pelo ralo levando consigo mais do que impurezas, o seu perfume embriagador e as suas secreções de fêmea. Sente um aroma de lavanda, cortando o ar e penetrando, sem pedir licença, pelas suas narinas, e isso excita ainda mais a sua libido e ele se imagina roçando a sua nuca, sentindo na face os seus cabelos negros recém enxaguados. E assim continua a sua viagem induzido pelo som e pelo cheiro que teimam em penetrar em seus ouvidos e narinas, permitindo deleitar-se em seus sonhos proibidos.

Talvez não tão proibidos assim, sendo ele sozinho e ela, bem..., nunca a vira acompanhada e tampouco percebera algum som que indicasse outra presença que não a dela em seu apartamento. Não que ele ficasse permanentemente vigiando a sua vida, mas, era impossível evitar o descontrole que se lhe apossava sempre que percebia a sua presença no lar. Por mais que se esforçasse não conseguia deixar de apurar os ouvidos na esperança, quem sabe, de ouvir algum sussurro ou gemido que a afastasse – ou talvez a aproximasse ainda mais – dos seus sonhos e pensamentos. E tudo em vão. O máximo que ouvia vez em quando era o seu cantarolar, entoando alguma música romântica, e isso o atraía e o aprisionava ainda mais, pois sendo ele um romântico inveterado.

Seria ela tão solitária quanto ele? Estaria também desiludida com as artimanhas do amor? Como a vida se nos apresenta às vezes de forma tão irônica: sentia-se ele tão próximo a ela e ao mesmo tempo tão distante. “Na próxima oportunidade em que estivesse a sós com ela iria tentar uma aproximação, enfim, quebrar o gelo” – pensou ele. Quem sabe não alcançaria sucesso! Quem sabe não seria ela a alma gêmea que ele tanto procurava?!

Volta a imaginá-la em seu banho. O corpo agora já totalmente tomado pela espuma abundante do sabonete. A esponja a deslizar por entre as poucas curvas, é verdade, porém não menos perigosas. Imagina-se junto a ela, sendo tuas as suas mãos, acariciando o seu colo, com as mãos em concha a aparar o volume mediano dos seus seios rijos, num aconchego frente no verso em sua pele deliciosamente deslizante pelo ensaboado aromático. Vê-se a posicioná-la com o corpo suavemente arqueado para frente contra a parede. As pernas levemente entreabertas e as mãos espalmadas no azulejo a formar uma linha reta tendo como ponto eqüidistante o registro do chuveiro, criando uma figura de uma simetria extraordinariamente sensual. Proporcionando-lhe, desta forma, uma visão encantadora daquele corpo de fêmea ardente, tendo como ápice a sua vulva espumante como se fosse uma taça de champanhe implorando para ser sorvida.

E em sua quimérica viagem por esta fantasia, distraidamente se auto-acariciava. Apercebera-se disto somente quando sentiu a rigidez do seu membro em suas mãos.

Subitamente, uma voz masculina chega-lhe aos ouvidos arrebatando-o bruscamente dos seus devaneios: “Querida, traga para mim a toalha de banho porque eu esqueci de apanhá-la” – dizia a voz.

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