O Concurso de Modelos

Lar, doce e abençoado lar! Leopoldo não pôde deixar de lembrar deste velho e manjado adágio popular ao chegar à sua residência após um estressante dia de trabalho. Ansioso por cumprir o ritual vespertino diário: beijar a mulher, abraçar e acarinhar a sua querida filha, para então finalmente imergir em sua jacuzi numa relaxante hidromassagem, tendo à borda o uísque predileto preparado cuidadosamente pela esposa - 50ml, nem mais nem menos, on the rocks, 2 cubos. A amada, massageando a sua musculatura da região do ombro e pescoço, lhe diz palavras ardorosas ao ouvido, tendo ao fundo um som New Age e no ar um aroma de sândalo, seu incenso preferido. Ah! Nada como o sacrossanto ambiente do lar! - pensava ele.

Mal aciona a campainha abre-se a porta e pelo semblante anuviado da mulher percebe logo que algo não está bem. Ela não o afaga como de costume; no lugar do beijo ardoroso e demorado somente um rápido selinho como boas-vindas. Prefere fingir que não percebeu o quadro que se lhe apresenta e adentra na casa com a esperança de junto à filha encontrar a recepção calorosa de costume. Não a vendo na sala, dirige-se ao seu quarto e ainda no corredor sente desvanecerem-se as suas esperanças: soluços de ressentimento chegam até ele, mesmo antes de alcançar a porta. Quando então a vê, deitada sobre a cama em semi-posição fetal: com o travesseiro entre os joelhos e o rosto oculto pelas mãos, lá estava a sua menininha querida, agora nem tão menininha – embora no momento demonstrasse a fragilidade de tal – porém cada vez mais querida. Acercou-se da cama e com a mão direita começou a acariciar a sua vasta e negra cabeleira. Beijou-lhe a fronte e perguntou o motivo de tão profunda tristeza. Sem se conter, num impulso felino, ela aninhou-se em seus braços e balbuciou entre beicinhos: “Mamãe não quer me deixar participar do concurso.” “Que concurso, minha filha?” – interrogou ele. “O concurso que uma agência de modelos mexicana está realizando no Brasil para selecionar duas garotas brasileiras: uma do Rio de Janeiro e outra de São Paulo, para trabalhar com eles no México, residindo em sua capital - Cidade do México.” – explicou ela. Neste momento, ao ouvir estas palavras serem pronunciadas pela boca de sua filha, Leopoldo compreendeu que não se tratava mais daquela menininha que ele tanto acalentara por toda a sua vida e que era objeto do seu mais profundo amor. Ela crescera e tornara-se uma mulher com fortes convicções e personalidade. No entanto, nada disso importava. Para ele, em seu coração, ela continuaria sendo sempre a sua garotinha. Compassivo, ele, na tentativa de suavizar a tristeza da filha, disse-lhe: “Vou conversar com sua mãe e depois nós iremos fazer a sua inscrição neste tal concurso.” O sorriso meigo e quase infantil que brotou em seus olhos e lábios deu a Leopoldo a segurança que faltava para ele ter a certeza de que havia tomado a decisão correta. Então, resoluto ele foi ao encontro da esposa. Encontrando-a recostada no sofá da sala, sentou-se ao seu lado e a partir daí deu-se o seguinte diálogo. Levando em consideração que o significado da palavra diálogo é ‘conversação ou palestra entre duas ou mais pessoas’, podemos considerar que o que ocorreu foi mais um monólogo do que um diálogo.

“Querida, não faça assim. Eu também não quero perder a nossa filhinha, mas, não podemos reprimir os seus sonhos.”

“...”

“Você sabe o quanto eu a amo também. Seria um enorme suplício para mim se de repente ela houvesse que viver longe de nós.”

“...”

“Porém, não é justo cercear a sua busca pelos ideais. Nós temos que respeitar a sua vontade.”

“...”

“Além disso, no mês que vem ela já fará 18 anos e poderá tomar as decisões sobre a sua vida sem depender de nossas autorizações. Eu sei que é difícil para você entender isto. Para mim também é. Por exemplo, somente agora há pouco, enquanto eu conversava com ela, foi que eu percebi que ela já é uma mulher feita, e que está preparada para alçar os vôos em busca dos seus projetos de vida. Se estes vôos continuarem sendo por perto de nós menos mal, porém, nada pode nos garantir isto.”

“...”

“Vamos combinar o seguinte? Eu a levo para fazer a inscrição, ela ficará feliz, quando sair o resultado ela terá uma pequena decepção, porém, terá também a certeza de que lutou pelo seu sonho, e logo depois esquecerá esta história toda e voltará ao seu normal. E nós não nos sentiremos os culpados pela sua tristeza. Você já imaginou quantas garotas devem estar se inscrevendo neste concurso? Dezenas de milhares ou talvez centenas de milhares. E só há uma vaga para a nossa cidade. As chances de nossa filha são remotíssimas. Não que eu ache que ela não tenha beleza suficiente para conquistar esta vaga, mas são muitas candidatas e algumas ainda têm os seus pistolões.”

“...”

“Então está combinado: eu vou agora mesmo com ela para fazer a tal inscrição e daqui a umas três semanas, imagino que este assunto já deverá estar encerrado e esquecido de vez. OK?”

“...”

Como a esposa não esboçou nenhuma resposta, ele, que aprendeu desde rapazinho que ‘quem cala consente’, foi com a sua pequenina, que então era só sorrisos, realizar a inscrição no tal concurso.

As três semanas, previstas por Leopoldo, já haviam se passado, quando em sua mesa de trabalho soa o sinal sonoro do telefone. Ao atender ouve a voz de sua filha num misto de frustração e excitação: “Pai, saiu o resultado do concurso e eu não fui a escolhida.” – disse-lhe ela. “Minha filha, a vida tem dessas coisas...” –apressava-se Leopoldo, num ímpeto paternal, em consolá-la quando ouviu novamente a sua voz do outro lado da linha dizendo-lhe: “Mas, imagina papai!!! Uma agência italiana, que é associada à agência que realizou o concurso, viu e gostou do meu book e me fez um convite para residir e trabalhar com eles lá em Milão. Ouviu papai?! Milão! Vou trabalhar em uma das grandes capitais da Moda! Milão, papai, Milão!!!”

“(...)”

          [Retornar]