O Relógio da Central do Brasil

- Edinho, tá vendo o relógio da central?
- Peraí, mãe... Tô!
- Ah, então a gente ainda não está perdido!

Este é o diálogo que se passava várias vezes nos dias em que a minha mãezinha saía comigo lá da nossa cidadezinha no interior do estado, chamada Paracambi, para simplesmente passearmos pelas ruas da cidade grande. O perímetro da área do nosso passeio era delimitado pela visão deste antigo marco da cidade do Rio de Janeiro: o Relógio da Central do Brasil.

Não havia um período certo do ano para que tal passeio acontecesse, era só ela cismar que me arrumava com a minha melhor roupinha, fazendo o mesmo com ela própria, me pegava pela mão, caminhávamos uns 30 minutos do bairro onde morávamos até a estação do trem, e assim vínhamos nós até esta belíssima cidade que – eu mal podia imaginar na época – eu conquistaria depois de adulto. Muitas vezes, ela fazia isso com o dinheiro suficiente somente para as passagens e para um lanchinho!

Ah, para mim, que estava entre os meus seis e sete anos de idade, era a suprema felicidade! No trem, eu sempre viajava em pé em cima do assento - eles eram longitudinais com os costados logo abaixo das janelas - e com as mãozinhas agarradas firmemente nas janelas abertas sentindo o vento em minha face e admirando, na minha curiosidade e alegria infantis, cada paisagem que passava diante dos meus olhos.

Quando chegávamos à Gare D. Pedro II, como ela é conhecida formalmente, a gente sempre lanchava em uma das lanchonetes do local. Eu sempre pedia uma vitamina de abacate ou então uma vitamina mista. Eram as minhas preferidas! Adorava saboreá-las olhando extasiado para aquele teto imenso e alto e vendo aquele vai e vem frenético das pessoas seguindo os seus caminhos. A vitamina de abacate, eu ainda gosto e de vez em quando eu a faço em casa e sempre que eu me delicio com o seu sabor eu me transporto no tempo para aqueles momentos extremamente simples e felizes. Já a vitamina mista, infelizmente, eu não conheço os seus ingredientes, me parece que levava beterraba, dada a sua coloração bastante vermelha, mas não tenho certeza. Gostaria muito de voltar a sentir o seu sabor. Se, porventura, algum dos meus possíveis leitores souber desta informação e puder me passar favor enviá-la para o meu e-mail.

Depois que a fome era devidamente saciada, a gente saía às ruas para o nosso passeio, que normalmente começava pelo Campo de Santana, nome oficial, Praça da República, onde eu me encantava com as cotias, os inúmeros peixes no laguinho e os patos e marrecos se refrescando em seus nados que, às vezes, pareciam sincronizados.

Dali a gente iniciava as nossas caminhadas pelas ruas da redondeza, meio sem rumo, somente pelo simples prazer de andar pelas ruas da cidade grande. Até que, exaustos mas felizes, nós voltávamos à estação para pegarmos o trem de volta à nossa cidadezinha do interior, ao nosso mundinho real.

Hoje, sempre que eu penso nestes momentos, eu me pergunto: será que ela com este gesto, na sua rústica sabedoria, muito provavelmente de forma inconsciente, já não estava fazendo germinar em mim uma sementinha que me fizesse ter o gosto e a disposição para ampliar de tal forma os meus horizontes que acabasse extrapolando os limites daquela pequenina cidade natal?

. . .

Sim, minha mãezinha, eu continuo vendo o Relógio da Central do Brasil e cada vez me sentindo menos perdido no meu rumo. E sempre tendo você próxima de mim: em meus pensamentos, em minhas orações e em meu coração!

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