O Romance

Santos Dumont lotado.
Manhã chuvosa de um inverno pouco habitual no Rio de Janeiro. Céu fechado.
Teto baixo.
Acendo mais um cigarro, tentando afastar a ansiedade que insiste em se apossar de mim. Preciso largar esse maldito vício. Péssimo dia para pegar a Ponte Aérea. “O Rodolfo bem que poderia ter marcado esta reunião de revisão final do meu mais recente romance para a parte da tarde” – penso eu. Mas, enfim... Volto a concentrar-me em meu cigarro. Na fumaça a bailar das pontas dos meus dedos formando uma névoa fina diante dos meus olhos.
E, como uma miragem através, e emoldurada pela névoa eu a vejo. Como a Deusa do Amor a passar diante de mim.
Para a poucos metros, demonstrando, também, certa ansiedade pela demora. E eu, na minha timidez, fico a observá-la extasiado, com receio de ser flagrado nesta minha furtiva apreciação.
Que imponência!
Que belo exemplar de mulher!
Não propriamente bela, porém, de um charme que não se explica, simplesmente existe.
Corpo sensual num sóbrio tailleur de um verde no meu tom predileto. Maquiagem leve de uma sobriedade ímpar. Cabelos negros na altura dos ombros contrastando com a pele alva.
Oh, meu Deus!
Esqueço Ponte Aérea, editor, livro,...
Neste momento só tenho pensamentos para um sonhado e venturoso romance que eu poderia ter com ela.
Meu mundo, neste momento, passa a ser ela,... dela,... e para ela.
Uma onda magnética extremamente forte aprisiona-me a esta mulher, qual teia de aranha, sem chances de escape.
Começo a imaginar a sua vida. Quais seriam os seus sonhos. Seus anseios. Suas tristezas e alegrias. Percebo em seu anular esquerdo, junto a um anel solitário, a marca que indica a sua condição civil. Ah, como eu gostaria de estar no lugar deste felizardo. Compartilhar de sua rotina, que não seria tão rotineira assim. Com uma mulher desta ao lado torna-se praticamente impossível fazer da vida uma rotina.
Imagino como seria dormir ao seu lado, e despertar no meio da madrugada somente para admirar este corpo emoldurado pelos lençóis. Para depois, sussurrar ao seu ouvido palavras carinhosas trazendo-a de volta do ‘Olimpo’ para saciar a sede de amor deste simples mortal.
Cada vez mais audaz em meus pensamentos, começo a penetrar em sua intimidade... Seus beijos,...seus abraços,...seu calor,...seu sexo. Oh, sublime ventura seria perder-me em seus braços para encontrar-me no prazer extasiante do seu frenesi. Sinto a cabeça latejar, o cigarro os meus dedos queimar, e em meu peito bater descompassadamente esta ‘bomba injetora’ que se chama coração.
Tento concentrar-me no jornal que estava esquecido ao meu lado sobre o balcão da cafeteria.

“Guerra contra os talibãs em eminência no Afeganistão.”
“Outra derrota da seleção brasileira de futebol agrava o risco do Brasil não se classificar para a Copa do Japão/Coréia.”
“Dólar volta a subir e Bolsa cai em todo o mundo.”
“Descoberta mais uma fraude em Brasília.”

Definitivamente, o jornal não é a melhor opção na minha tentativa de livrar-me deste “magnetismo-prisão”.
Jogo o jornal na lixeira e peço mais um cafezinho ao balconista. Acendo outro cigarro. Preciso largar este maldito vício!!!
O meu olhar retorna para ela. Não adianta resistir. É mais forte que eu. Por um instante nossos olhares se encontram e percebo nenhuma reação de sua parte. Nem um sorriso sequer. Sinto-me como algo obsoleto que não consegue atrair a sua atenção. O último dos homens.
E se eu me aproximasse, e tentasse entabular uma conversa:
Olá! Que dia horrível, não?” – péssimo.
Bom dia, eu estava te observando, e...” – pouco sutil.
Desculpe-me, mais eu não pude resistir a uma aproximação...” – direto demais.
Sabe, sua beleza é uma obra de arte.” – ousado e sem originalidade.
Desculpe-me se estou sendo importuno...” – inseguro.

Caramba! Como é possível um homem na minha idade, com alguns romances na bagagem – profissionais e pessoais – portar-se como um adolescente diante de uma mulher.
Porém, esta é uma mulher especial. É A Mulher!
Àquela que te eleva a mais sublime inspiração. Que te faz sentir-se como um Deus, por estar ao seu lado.
Preciso me aproximar, todavia meus membros inferiores permanecem paralisados. Não obedecem à ordem que recebem do cérebro.
Oh, sublime angústia!
Sinto-me como um náufrago que, em seu desespero, vê ao longe o litoral, porém, seus braços não mais obedecem ao comando para continuar cortando as águas e assim alcançar a salvação.
Os minutos passam. Os vôos continuam suspensos, mas isso já não importa mais. Pelo contrário, torço para que assim continue por muito tempo ainda. Para que não chegue o momento da despedida, mesmo que não tenha havido a apresentação. Preciso mantê-la ao alcance dos meus olhos para continuar ciente de que estou vivo.
Conheci esta mulher há poucos minutos e, mesmo sem sequer saber o seu nome, ela já se tornou imprescindível em minha vida.
Se ao menos eu conseguisse descolar estes malditos pés do chão, retomando o controle dos meus atos e movimentos, e assim aproximar-me dela. Inútil. Continuo rígido como uma estátua de pedra. Sem poder de reação. Hipnotizado pelo seu magnetismo.
Neste momento, para o meu desespero, o serviço de auto-falante do aeroporto anuncia a liberação dos vôos. E, neste momento, para desespero maior ainda, eu percebo que ela está em um vôo diferente do meu.
E, neste momento, nasce um romance.
Para a minha infelicidade, um romance literário.
Um romance que me permitirá viver, com toda a intensidade das minhas emoções, o seu amor. Usufruindo do seu carinho no aconchego do nosso ninho, no ritmo da batida dos nossos corações. Viveremos momentos tão intensos que jamais outro homem ousou viver ao lado de uma mulher.
E assim, a mulher que poderia mudar a minha vida. A mulher que, por alguns minutos, foi amada como jamais alguma outra foi, sem sequer tomar conhecimento deste amor. A mulher que balançou a minha cabeça, não sem antes, talvez por precaução, paralisar as minhas pernas tornou-se para mim apenas isso... um romance literário.

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