Taxi Boy - O Reverso do Amor

(Oitavo Lugar no III Concurso de Contos da Petros)


"Moreno; 1,85m; 83Kg; físico atlético.
Nível Superior.
Sou extremamente discreto e atencioso.
Atendo somente mulheres.
Rômulo - Celular 9199-......"

As mãos que seguravam o jornal onde se lia este anúncio tremiam. Não só as mãos, mas todo o corpo de Cíntia estava em ebulição. Sentia em suas veias a ardência do sangue a correr, num compasso acelerado, como se fosse lava vulcânica. Não suportava mais aquela situação desesperante de carência. Além de jovem e bela (ela tinha um corpo escultural, com o bumbum padrão ‘preferência nacional’’) Cíntia era sexualmente saudável. O ato sexual para ela tinha talvez a mesma importância que o ato de respirar. Acreditava ser o sexo fundamental para o equilíbrio físico e psicológico de qualquer pessoa. Lembra-se com saudade da época em que se iniciou sexualmente. Os folguedos amorosos. O descobrimento de cada ponto erógeno do seu corpo e do parceiro. As carícias preliminares, aquecimento fundamental para um ato bem transado.

Permite-se viajar no tempo e no espaço, revivendo cada detalhe dos momentos inebriantes que passou ao lado dos namorados que tivera, que nem foram tantos assim. Ao reviver esses momentos sente a sua respiração cada vez mais ofegante, instintivamente posiciona a mão esquerda por entre as coxas e sem perceber começa a acariciar-se. Seus dedos movimentam-se num ritmo cada vez mais frenéticos até culminar numa explosão de êxtase.

Enquanto a pulsação pouco a pouco vai se normalizando, um sentimento de frustração apodera-se do seu ser. E, então, relembra-se da decisão que tomou há dois anos e que mudou a sua vida.

Contava então 24 anos de idade quando, ela, que sempre fora extremamente ambiciosa, decidira casar-se com Alfredo - um industrial de muitas posses e que costumava freqüentar as altas-rodas da sociedade. Encantado com a sua beleza, ele prometera pôr o mundo a seus pés caso ela aceitasse casar-se com ele. Embora relutasse inicialmente, Cíntia acabou aceitando, já antevendo a vida de princesa que teria a partir de então. No início tudo era novidade para ela. Ficava maravilhada com tudo que ele lhe oferecia: carros, belas jóias, festas, roupas de grifes luxuosas... Enfim, tudo aquilo que o dinheiro podia comprar. Com tudo isso à sua disposição pouco se importava com o fato de Alfredo ter mais do que o dobro de sua idade.

Só que, com o passar do tempo, ela percebeu que nem tudo pode ser comprado com o dinheiro. Faltava algo mais. Sentia-se de alguma forma incompleta. Embora tivesse uma vida sexual razoável ao lado dele, queria mais. Queria muito mais. Desejava sentir-se plenamente realizada no amor. E, ao lado de Alfredo, sentia um imenso vazio no coração.

Foi quando conheceu Rômulo. Belo. Moreno. Um perfeito exemplar do gênero masculino. Um homem que, segundo ela, poderia realizar qualquer mulher no amor. Foi numa festa, em que estava reunida a mais fina nata da Alta Sociedade. Ele estava acompanhado, ou melhor, acompanhando uma mulher apesar dos seus presumíveis 50 anos de idade. Inicialmente, Cíntia não entendeu muito bem o que estaria fazendo aquele belo e jovem rapaz ao lado daquela senhora. E assim ficou a observá-lo sutilmente, imaginando uma explicação para o fato. O rapaz, por sua vez, percebeu o interesse de Cíntia, e do seu lado também ficou a imaginar o que aquela mulher maravilhosa estaria fazendo ao lado daquele senhor que aparentava ter o dobro da sua idade. Chegou à conclusão de que ela devia ser uma profissional do mesmo ramo que ele. E entre um drinque e outro acabaram tendo a oportunidade de se falar. Quando Cíntia lhe disse que aquele senhor era seu esposo, Rômulo viu nela uma cliente em potencial. Seria o paraíso para ele poder satisfazer a carência desta mulher fenomenal e, além de tudo, receber pelo serviço. Assim sendo, abriu logo o jogo e disse-lhe que acaso desejasse conhecê-lo melhor bastava procurar o seu anúncio numa seção específica de um determinado jornal, onde encontraria o número do seu celular. Foi uma conversa extremamente rápida, para que não chamasse a atenção. Mas o suficiente para que Cíntia se interessasse mais ainda por ele.

Desde então, ela não conseguia tirá-lo do pensamento. Ficava imaginando aquele corpo másculo a possuí-la. Devolvendo-lhe o que ela havia renegado há dois anos ? o direito ao pleno prazer.

Cíntia, porém, não era ousada suficiente para concretizar esta fantasia. Não tinha coragem de trair Alfredo. Todavia, a cada dia que passava, ela sentia a sua resistência enfraquecendo mais e mais. Até que resolveu procurar o anúncio no jornal.

Cíntia desperta de suas reminiscências e sente-se envergonhada de estar com aquele jornal na mão, assim como do ato que acabou de praticar. Tenta, nos próximos dias, junto com Alfredo, desafogar os seus desejos mais ocultos. Porém, embora Alfredo correspondesse com uma demonstração de vigor invejável para a sua idade, Cíntia continuava sentindo-se incompleta.

Finalmente chegou o dia em que a barreira, ou o que ainda restava dela, desmoronou. Cíntia decidiu ligar para o celular de Rômulo e marcar um encontro para aquela tarde.

Num misto de excitação e medo, Cíntia colocou a sua mais ousada ‘lingerie’ e, com o peito em estado de ebulição, dirigiu-se ao motel combinado. Rômulo mostrou-se um perfeito cavalheiro em suas carícias iniciais, acompanhadas de muita ternura e afeto. Foi, pouco a pouco, descobrindo cada milímetro do seu corpo sôfrego de desejo. Era como se ele já conhecesse o mapa de cada terminação nervosa. A cada ponto tocado ela gemia de prazer, e a cada gemido dela ele pronunciava uma palavra de carinho em retribuição. A cada toque de língua, a cada mordiscada, seu corpo se metamorfoseava, induzido pela química de seus hormônios, tornando-a assim uma fêmea completa e loucamente preparada para o prazer. Ao pousar a face em seu mais oculto recato, Rômulo percebeu quanto a estava fazendo mulher. E, suave e docemente, iniciou então a penetração. Ás vezes num ritmo lento e bem cadenciado, outras num ritmo quase animal, o que a enlouquecia de prazer. Foram mais de duas horas de puro sexo. Tal qual ela imaginara, Rômulo mostrou-se um macho perfeito.

A partir daí Cíntia tornou-se sua cliente assídua. E começou a se preocupar com o rumo que os fatos estavam tomando. Flagrava-se pensando, mais do que o desejável, nele. Foi quando percebeu que estava apaixonada. E tal fato a apavorou. Isso não podia acontecer. Não poderia prescindir de tudo aquilo que Alfredo lhe oferecia. Dessa forma, decidiu não mais procurá-lo. Passaram-se uma... duas... três semanas... Até que não resistiu e voltou a procurá-lo. Rômulo percebeu que algo a perturbava, porém seguindo a sua discrição, resolveu nada comentar sobre o assunto. Limitando-se a cumprir seu dever de profissional.

Ao retornar para casa, Cíntia arrependeu-se amargamente de procurá-lo. Parecia que este encontro aumentara ainda mais a paixão que nutria por ele. E, novamente, decidiu não procurá-lo mais. As semanas passavam e ela na sua luta interior contra a paixão avassaladora que a corroia por dentro. Sentia que, tal qual um vício, aquele sentimento a estava minando física e psicologicamente. Chegava a cogitar a idéia de abandonar Alfredo para viver o seu amor por Rômulo. Porém sabia ser um devaneio da sua parte. Rômulo era um profissional. A relação que havia entre os dois era de cliente e fornecedor. Chegou à conclusão que estava indo longe demais em seus devaneios. E que tinha que dar um basta nesta situação.

Passou-se mais uma semana, e ela continuava ‘respirando’ Rômulo. Estava então no limite da sua resistência, e o toque do seu celular a fez despertar de seus devaneios. Sua pulsação acelerou assustadoramente quando, através daquele aparelhinho tão insignificante, ouviu sua voz quente e cálida. Desejava encontrar-se com ela. Foi o golpe de misericórdia em sua resistência. Marcaram para aquela tarde.

Como sempre, viveram os seus momentos de amor. Só que, desta vez, ela percebeu que Rômulo estava superando-se em termos de carinho e desvelo para com ela. Após o sexo, enquanto eles descansavam, ele falou que tinha algo muito importante a dizer-lhe e emendou:

- Cíntia, aconteceu algo surpreendente comigo. Algo que jamais poderia ter acontecido. Por todos esses anos em que venho atuando como garoto de programa eu sempre procurei manter uma distância apropriada entre minhas emoções e as de minhas clientes. Com você, eu não pude evitar. Por isso estou te dizendo que este é o nosso último encontro. Você é uma mulher casada e está acostumada a ter tudo o que deseja. E eu nada tenho a oferecer-lhe além do meu amor. Peço-lhe desculpas por esta situação, e prometo nunca mais lhe procurar, para não atrapalhar a sua vida. Cíntia, eu estou perdidamente apaixonado por você.

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