Um Último Bolero

(Segundo Lugar no Concurso Literário AMBEP 2011 - Categoria Contos)


Ao transpor a entrada daquele salão, um leque de sensações tomou conta do seu corpo e uma gama de emoções se apossou da sua alma remetendo-o a um passado remoto: foi há sete décadas que ele adentrara pela primeira vez um salão de dança, para iniciar a sua primeira aula. Neste momento a figura daquele que fora o seu mestre na iniciação do maravilhoso mundo da Dança de Salão se materializa em sua memória de forma tão perfeita que ele se imagina revivendo aquele dia.

Rapaz com pouco mais de vinte anos, com uma formação profissional garantida e bem encaminhada, ele, que sempre tivera uma certa atração pela dança resolvera exercê-la como passatempo. Por intermédio de um amigo, que conhecera na empresa onde trabalhava, tomou conhecimento da casa de dança onde então estava se iniciando.

Como um filme projetado de forma instantânea diretamente em suas fibras mentais, as imagens vão passando num turbilhão colorido refletindo toda a sua trajetória, desde aquele dia, quando nas primeiras lições conhecera termos como ‘Cruzado’, ‘Caminhada’, ‘Cortada Lisa’ e ‘Saída Lateral’ que se incorporaram de forma definitiva no seu dia-a-dia.

Lembra-se da decisão que tomara, poucos anos após aquele dia, para desespero dos seus pais que a consideraram uma decisão idiota e irresponsável, de largar a sua carreira profissional e montar a sua própria casa de dança. Apesar dos apelos enérgicos dos pais, ele sabia que não havia outro rumo a tomar em sua vida, pois a dança o envolvera de tal forma que ele, apaixonadamente, havia se entregado a esta arte. Para ele, deixar fluir a música pelo corpo como se parte dele fosse, inundando-o com os seus acordes e induzindo-o a acompanhar o seu ritmo, muitas vezes em êxtase, era uma experiência de tal grandeza que transcendia ao domínio da razão. Saber entender e dominar o corpo de uma mulher, conduzindo-o num bailado de movimentos ora sensuais ora indolentes e sempre elegantes, produzindo figuras corporais de tão rara beleza que poderiam ser comparadas a belos acordes extraídos de um instrumento musical, era para ele uma das essências da arte viva.

Ele devorava avidamente cada novo passo ensinado pelo mestre e seu aprendizado estava sendo tão rápido que foi convidado por este para ser o seu auxiliar. Convite feito convite aceito!

Porém, o céu era o seu limite! Poucos anos se passaram e ele já inaugurava a sua própria academia de dança. Assim, o que havia começado como um agradável passatempo, tornara-se a sua ocupação principal.

Recorda-se das amizades conquistadas, dos dedicados admiradores, das inúmeras vitórias e dos grandes amores que ele havia conquistado naquele mundo encantado da dança, nos salões e nos palcos.

As amizades, aquelas que ainda sobreviviam ao tempo, encontravam-se espalhadas pelo mundo e se manifestavam das formas mais variadas, por meios reais ou virtuais, nos momentos comuns ou especiais como aquele que ora estava vivendo.

Os admiradores foram se renovando e se ampliando através das gerações, um dos seus grandes orgulhos era o fato de tê-los entre os já sexagenários assim como também entre os recém-saídos da adolescência.

As vitórias... ah!, essas, que haviam lhe proporcionado momentos de extrema glória, mantinham-se vivas através dos troféus, das reportagens, fotografias e filmes cuidadosa e organizadamente guardados em sua residência.

Já os amores, por seu aspecto possessivo, trazem lembranças de momentos doces mas também amargos. De todos eles há um que merece o lugar de destaque na galeria das suas recordações. Companheira dedicada e amorosa na vida e parceira também dedicada e talentosa na dança. O completou em todos os sentidos. Ela animou a sua vida como se fosse a dela própria, por um período de pouco mais vinte anos. Mas, quis o destino que ela partisse bem antes dele. Tomada de um mal súbito, sem tempo para despedidas, ela se fora, deixando-o com a sensação de um imenso vazio, de que parte da sua vida também havia acabado. Após a morte dela até a dança, a sua grande paixão, ele renegou. Manteve-se afastado dos salões e palcos por mais de três anos. Neste período ele quase sucumbira também, pois fora tomado pela tristeza de tal forma que, apesar dos apelos dos amigos, optou por uma vida totalmente reclusa.

Relembra ainda do dia em que, o amor pela dança novamente floresceu. Refeito do desgosto, apesar da saudade, ele retornou aos salões. Viveu plenamente desta e para esta arte até que o seu corpo, pela idade avançada, o obrigou a abandonar definitivamente este prazer.

Porém, ali estava ele, novamente adentrando um salão. Desta vez para comemorar com os amigos e admiradores, e por muita insistência deles, os seus noventa e cinco anos de idade. Ladeado pelos amigos mais próximos ele dirige-se à mesa que lhe é destinada. Nela se acomoda para observar os casais bailando pelo salão. Alguns deles foram seus alunos, outros foram alunos dos seus alunos, e por aí vai...

Estava ele concentrado na evolução dos casais, quando a orquestra começou a tocar o seu bolero favorito. Imperceptível excitação o domina! Imperceptível para a maioria das pessoas, mas não para uma amiga especial que estava na mesa com ele. Ela, sabedora da sua preferência por esta música, o convida para dançar. Ele titubeou, mas diante da sua insistência acabou cedendo exclamando ‘É, que mal há em um último bolero!’. Dito isto, ele conduziu a dama ao centro do salão e lá a faz evoluir elegantemente como fizera com tantas outras, no decorrer de toda a sua vida. Os casais pararam para apreciar a evolução, como a fazer uma última reverência ao seu velho mestre. E ele, em toda a sua majestade, bailou com a sua dama até o último acorde daquele bolero. Finda a música, sob os aplausos e admiração de todos os presentes, inclusive da orquestra, ele retorna à sua mesa, um pouco exausto, mas imensamente feliz.

Ao chegar à mesa, que naquele momento estava vazia, a amiga pediu licença para ir ao toalete. Então, ele sentou-se sozinho e por um tempo ficou deliciando-se com o que acabara de acontecer.

Passados alguns minutos, a amiga retorna do toalete e faz um ligeiro comentário sobre a música que a orquestra tocava naquele momento. Não obteve resposta e nem qualquer outro tipo de reação. Ela aproxima-se mais dele para observá-lo atentamente. Vê em seu semblante uma expressão suave num misto de profunda paz com extrema felicidade. Numa verificação mais apurada ela percebe que ele não mais se encontrava ali. Restava somente o seu corpo cansado, de tantas melodias ouvidas e tantos passos bailados, que agora estava inerte para sempre.

Ele se fora. Fora bailar em outros salões, ouvindo outras melodias, provavelmente mais etéreas. Sim, ele se fora! Embalado por um último bolero.

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